Quando o sonho de voltar a estudar ainda vive, apesar da espera

Foto: Divulgação/MEC

Josiane da Silva Santos conta como a educação de jovens e adultos no Instituto Federal Catarinense a ajudou a concluir o ensino médio, a sonhar com o Enem e com o curso de pedagogia

Um sonho guardado e fechado na gaveta por 18 anos. É assim que Josiane da Silva Santos, de 47 anos, descreve a vontade de estudar que a acompanhou enquanto se dedicava ao trabalho, à casa e à família. Entre as responsabilidades como mãe e esposa, voltar à escola parecia cada vez mais distante. Hoje, depois de concluir o ensino médio na modalidade educação de jovens e adultos (EJA) integrada à educação profissional e tecnológica (EPT) no Instituto Federal Catarinense (IFC), ela já tem outros planos: fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e cursar pedagogia.

O desejo de continuar aprendendo aparece na maneira como Josiane fala do futuro e ver a educação. “Antes tarde do que nunca. [Estudar] não tem idade, não tem limites. E o conhecimento é algo que ninguém tira de você”, destaca.

Inscrita no Enem de 2026, ela quer chegar à faculdade. Para adquirir essa disposição, Josiane precisou recuperar a confiança na possibilidade de voltar à sala de aula, já que, quando interrompeu os estudos, não enxergava como poderia retomá-los. Com isso, a rotina seguiu, os filhos cresceram e a formação permaneceu como um desejo adiado.

Até que Josiane deu o primeiro passo para concluir o ensino fundamental por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). Na infância, ela estudou apenas até a quarta série. Aquilo que parecia inalcançável se tornou uma conquista concreta e a levou a descobrir que gostava de estudar e queria seguir por esse caminho.

Em seguida, viu um anúncio sobre a EJA integrada à EPT do Campus Sombrio do IFC. Na época, Josiane tinha acabado de contrair Covid-19 e, logo depois, foi diagnosticada com meningite e encefalite viral. Doenças que a levaram a usar cadeira de rodas e a passar por um longo processo de fisioterapia.

Enquanto se recuperava, pensava também em como reorganizar a vida. Foi quando, em 2024, decidiu se inscrever no curso de ensino médio, na modalidade EJA Integrado à EPT com qualificação profissional em assistente administrativo do IFC. O certificado de conclusão foi recebido em agosto de 2026 e a formatura deverá ocorrer no fim deste ano.

Professora da EJA-EPT, Kênia Zanella acompanhou a estudante Josiane, que falava da própria recuperação como uma nova data de nascimento. Ao lembrar os problemas de saúde enfrentados pela estudante e sua disposição para seguir, a educadora destaca a satisfação de participar dessa etapa de sua vida.

A coordenadora da EJA-EPT, Campus Sombrio do IFC, Lucyene Lopes da Silva, encontrou na imagem de uma flor uma maneira de descrever as mudanças que testemunhou: alguém que chega fragilizada, cresce e floresce. Para ela, acompanhar Josiane também deixou aprendizados na equipe.

Um sonho compartilhado em casa – Voltar à escola exigiu conciliar as aulas noturnas com o trabalho e os cuidados com a casa e a família. A filha Ana Luiza da Silva Santos Alves viu de perto esse esforço. Procurava incentivar a mãe e ajudar nas tarefas domésticas para que ela pudesse continuar.

A educação passou a fazer parte também das conversas sobre o futuro. Ao falar com o filho mais velho, Josiane quis compartilhar o que havia descoberto sobre si mesma: estudar era algo com que se identificava e que desejava dar continuidade.

Depois do ensino médio, o próximo sonho ganhou nome. “Quero cursar Pedagogia, me apaixonei”, conta. A graduação ainda é um objetivo. Mas a distância entre desejar e dar o primeiro passo já mudou para Josiane. 

O sonho guardado por tantos anos voltou a ocupar espaço em sua vida, agora acompanhado da inscrição no Enem e da vontade de permanecer estudando.

Números – De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), o Brasil registrou, em 2025, a menor taxa de analfabetismo da série histórica: 4,9% entre a população com 15 anos ou mais. Em 2024, o índice era de 5,3%. Essa faixa etária integra o público atendido pelas políticas de educação de jovens e adultos nos estados.

CadEJA – O Ministério da Educação (MEC) desenvolve uma série de ações vinculadas ao Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da EJA (Pacto EJA), conjunto de iniciativas colaborativas implementadas com a participação dos entes federativos, incluindo o Cadastro da Educação de Jovens e Adultos (CadEJA), plataforma virtual criada para registrar o interesse em cursar a EJA e auxiliar o planejamento da oferta de vagas. 

Instituído pela Portaria nº 275/2026, o CadEJA funciona como uma ponte entre pessoas interessadas em retomar os estudos e as oportunidades de EJA disponíveis nos estados e municípios. Na plataforma, as pessoas podem manifestar interesse em voltar a estudar e receber orientação para encontrar uma oportunidade de matrícula. A iniciativa envolve quatro diferentes perfis de acesso: usuários, operadores, agentes de cadastro e gestores. 

Com informações da Assessoria de Comunicação Social do MEC

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